A Crise de 29 é um evento de
extrema importância para o vestibular. Muitos professores associam seus efeitos
aos levantes nacionalistas e até como causador da Segunda Guerra Mundial.
Permita-me parafrasear uma frase bem conhecida, mas muitos nem sabem ao menos
definir uma crise (ou suas causas), mas sabem que se trata de uma quando a vêem.
Neste presente
artigo vamos tentar analisar este tenebroso evento com uma linguagem menos
rebuscada e com algumas exemplificações livres para tornar mais fácil o entendimento.
Para compreender uma crise em sua totalidade, precisamos antes observar medidas
políticas e econômicas que foram tomadas nos períodos anteriores a ela. Mais ainda: precisamos também entender não apenas conceitos históricos, mas também econômicos para dar um melhor sentido ao que acontece.
Normalmente, a
explicação dada em sala de aula é de que a crise de 29 foi causada por conta de
um capitalismo “laissez faire”, ou seja, a existência de um mercado funcionando
livremente, sem interferências políticas, apenas contando com regulamentos
suficientes para garantir os direitos de propriedade, teria causado o colapso
econômico de 1929. Mas será mesmo?
Nessa primeira
parte vamos tentar pincelar (com exemplos lúdicos) o que é uma inflação e o que
significa a lei de oferta e demanda. Na segunda parte vamos explicar qual a
relação destes dois conceitos com a crise de 1929 e tentar desfazer alguns
mitos associados ao evento, bem como esclarecer determinados conceitos que são
pouco trabalhados em sala de aula. Tome esta série de dois artigos como um guia
para te ajudar a entender melhor o mundo atual e até mesmo para facilitar na
redação: dificilmente o Enem ou qualquer outro vestibular cobrará os conceitos
que são aqui trabalhados, e se trabalharem, vão adotar a interpretação
tradicionalista (e errônea) de que a crise de 29 foi culpa do laisses faire, e
que Rooselvet salvou os Estados Unidos (e o mundo) do colapso.
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| Teria sido Franklin D. Rooselvet o salvador do mundo? |
Muito se fala
na TV sobre a recente aceleração da inflação no Brasil e a subida de preços.
Mas você sabe o que é isso? Sabe o que causa uma inflação e quais são suas
consequências para o povo?
A explicação
mais tradicional afirma que uma inflação pode ocorrer por três motivos: 1 –
aumento de algum preço em itens essenciais para a população (como água e energia elétrica); 2 – Excesso de
demanda, sem oferta acompanhando e; 3 – Emissão de papel-moeda por parte do
governo. Vamos explicar caso a caso, acompanhe o raciocínio...
No primeiro
caso quando, por exemplo, Dilma anuncia que haverá aumento de impostos (seja na
luz ou na água) a tendência de todos os preços é subirem, ou seja, precisamos
pagar mais caro pelas coisas que compramos. Por que? Ora, veja bem, um mecânico,
ele tem uma casa, uma belíssima esposa e dois filhos para cuidar. Com o aumento
dos impostos, ele precisa repassar esse “custo extra” no preço de seus
serviços. Se antes ele cobrava um valor x para atender seus clientes, agora ele
cobra o valor x+y para fazer o mesmo serviço, pois ele precisa pagar suas
contas. O mesmo acontece com todos os outros profissionais – cabeleireiras,
pipoqueiros, encanador, vendedores de roupas e por aí vai – fazendo com que os
preços subam. Pior ainda: o pipoqueiro quer cortar cabelo, mas como os preços
no salão subiram (por conta do aumento de impostos) ele precisa aumentar o
preço de sua pipoca para poder fazer um corte maneiro e ainda poder pagar as
contas de casa. Por outro lado, pode acontecer que devido ao fato de que as pessoas começaram a poupar mais dinheiro (para dar conta de pagar impostos) pode haver uma menor procura por determinados serviços, e com isso sua redução no preço.
É possível
ocasionar inflação em um determinado setor do mercado quando há um excesso de
demanda, sem oferta acompanhando. Como assim? Imagine que num determinado dia,
o governo decide criar uma cota máxima de produção para pneus no país. A partir
daquele dia, só poderão ser produzidos internamente 5000 pneus por mês no
Brasil. Qual o problema nesse caso? A demanda (ou seja, aquilo que as pessoas
compravam da mão dos vendedores) era de 20.000 pneus por mês. Agora o mercado
está com um grave problema: há mais pedidos do que oferta. O que acontece? Aqui
aplicamos a lei da Oferta e Procura.
Que raios é
essa lei?
Tentando
resumir de grosso modo, o valor de todas as coisas no mercado é definido pela
oferta e pela procura. Vamos supor que há uma crescente demanda para a
existência de advogados no Mercado de Trabalho, só que existem poucas pessoas
qualificadas para atenderem essa necessidade. Ou seja, há mais pessoas
procurando por um serviço e menos trabalhadores disponíveis para atendê-los. Os
advogados por serem “recursos escassos” encarecem seus serviços, pois tem menos
concorrência e podem cobrar mais caro para atender os clientes que os procuram
desesperadamente. Agora vamos supor que com esse aumento na demanda, os jovens
e futuros universitários ficaram atraídos pelo gordo salário dos advogados e
querem entrar na mamata também, fazendo com que um número crescente de pessoas
entrem no Direito nas Faculdades do Brasil. Após toda essa multidão se formar e
passarem na OAB, eles entram no mercado e o “saturam”. Com o excesso de
advogados, os preços pelos seus serviços tende a descer, pois agora lidam com a
concorrência (que pode cobrar mais barato pelos seus serviços). O que
acontecerá nesse caso? Os jovens e futuros universitários ao perceberem que a
oferta é maior do que a demanda, se
sentem desestimulados a fazerem Direito e procurarão outro curso que poderá
recompensá-los mais. Os advogados menos competentes sairão do mercado, enquanto
os melhores (ou os menos ruins) permanecerão nele.
| Um gato advogado querendo a sua fatia no mercado! |
O mercado
se autorregulará de acordo com a oferta e a demanda, era o que Adam
Smith chamava de “mão invisível” que sempre ajusta o cenário econômico.
Apenas um
adendo pertinente: embora as correntes mais tradicionais chamem de “Inflação” esse
aumento nos preços de acordo com a demanda, torna-se obrigação de minha parte
dizer que não é uma nomenclatura muito correta para se aplicar a esta situação.
O que ocorre aqui é apenas um reajuste natural do mercado às situações do
cotidiano e as necessidades individuais. Ademais, nenhum produto sozinho é
capaz de provocar aumentos pertinentes em todos os outros produtos. Um preço
mais elevado na batata, não vai fazer com que o preço da gasolina salte. Porém,
não vamos adentrar em questões secundárias para não desviar o foco deste
artigo.
Muito bem,
voltemos então ao exemplo dos pneus para explicar inflação. Quando o governo
fez a proibição de produção dos pneus, ele se tornou um artigo raro. O que
acontece? Inflação, exatamente. O valor para a compra de pneus sobe de acordo
com a demanda. Poderia chegar ao ponto em que apenas a parcela mais rica da
população poderia comprar pneus. Mas e se o governo quisesse que os pobres
tivessem também acesso a tal recurso importante para os veículos? Ele poderia
chegar à genial ideia de congelar os preços dos pneus “para evitar o lucro abusivo
dos empresários capitalistas”. O que aconteceria nesse caso? Escassez. Haveria
filas para comprar pneus e as pessoas dificilmente seriam atendidas, pois não
teriam pneus nas lojas.
Por fim, uma
terceira possibilidade (e a principal causa de inflação no mundo) é a emissão
de papel-moeda por parte do governo. Lembra-se do que falamos sobre oferta e
demanda? O mesmo raciocínio pode ser aplicado na criação de dinheiro novo sem
lastro, sem garantia, sem que tenha havido criação de riqueza que o justifique.
Ou seja, a oferta de bens e serviços continua a mesma, mas o dinheiro em
circulação aumenta de volume. Esse dinheiro então perde seu valor, pois passam
a exigir uma maior quantidade dele para comprar um produto que antes podia ser
adquirido por um preço menor. Mas por que isso acontece? Será alguma
conspiração empresarial para impedir que pobres fiquem ricos com a emissão de
mais dinheiro?
Não. Vamos
imaginar uma situação hipotética e surreal para entender essa situação...
Suponha que seu
amigo de infância adquiriu o estranho poder de produzir dinheiro. Sendo uma
pessoa preocupada com as causas sociais, a marginalização e a pobreza, ele
decidiu criar dinheiro para todos os pobres de nosso país. Com a ajuda dele, as
pessoas se tornaram mais ricas e agora tinham mais dinheiro em suas contas
bancárias, isso é bom, certo? Não.
Sabe aquela
lei de oferta e demanda? Imagine que mais pessoas podem adquirir um serviço que
antes não conseguiam, ou seja, há um grande aumento na demanda, mas a oferta
não acompanha. O que acontece com os preços? Eles sobem e os produtos ficam
mais caros. Se os preços não subissem, haveria escassez de produto, como
ocorreu no caso dos pneus que ilustramos logo acima. Ou seja, para comprar a
mesma quantidade de bens e serviços, agora é preciso ter mais dinheiro do que
antes. Inflação.
Os pobres
voltaram a ser pobres e os ricos voltaram a ser ricos!
| Sabe como eu sei que você é pobre? É porque você está lendo esse artigo e não em Vegas, gastando seu dinheiro! |
Pior ainda...
Na situação do
seu amigo produzindo dinheiro e fazendo empréstimos a rodo, muitas pessoas
acharam que podiam se endividar, ou comprar coisas que na verdade não poderiam
numa situação normal. Quando os preços voltaram ao normal, as pessoas se
encontraram com dívidas que não poderiam pagar. O que elas farão? Dar o calote,
ou seja, não vão pagar o que devem. Essa decisão servirá como um efeito dominó
que prejudicará inúmeras pessoas e famílias. Grosso modo, eis aí uma crise em
seu início.
Neste primeiro
artigo compreendemos o que é inflação e explicamos o que é lei de oferta e
demanda. Ambos conceitos fundamentais para que possamos compreender o que foi a
crise de 1929.
É isso aí
pessoal, vejo vocês em um próximo artigo.
Mas e você, leitor? Concorda com todas as explicações feitas até o momento? O que pensa a respeito da crise de 1929? Teria sido realmente ocasionado pela livre iniciativa das empresas e a existência de um mercado desregulado?
Vinícius Miranda. Não espere encontrar em mim algum traço de normalidade. Sou do tipo que ostenta uma bala na faculdade, faço perguntas para meu cachorro esperando que ele responda e não sou como certas pessoas do meu círculo de amizades que mandam indiretas! Pois é. |
