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A Grande Depressão de 1929 - A Crise do Laissez-Faire? (Parte 2)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015



 

No artigo anterior expliquei alguns conceitos básicos de economia para que possamos (neste artigo) compreender o que causou a Grande Depressão e o que a fez durar tanto tempo. Todo professor defende que um mercado desregulado e sem limitações – características do capitalismo laissez-faire – teria sido o grande responsável pela crise de 1929 e que teria sido o New Deal (com uma série de intervenções políticas) do presidente Roosevelt que salvou a economia americana e o mundo do colapso total. Com isso, é passada adiante a infundada crença de que o capitalismo é um sistema econômico insustentável em si mesmo, e que precisa de um controle racional para estabelecer limites a fim de garantir controle social e o equilíbrio no mercado. Nesse artigo, mostrarei como políticas públicas foram as verdadeiras responsáveis pela crise de 1929, e irei além, pois discutiremos como as propostas de Roosevelt para a economia americana apenas pioraram e prolongaram uma crise que (se não tivesse ocorrido tantas intervenções) poderia ter terminado em menos de um ano. Mas antes (sempre tem um “antes”) de atacar a questão central, precisamos entender a verdade sobre como os bancos funcionam. 

Para tornar essa tarefa mais fácil e lúdica de entender, imagine que você (por algum motivo) detem o monopólio para produzir dinheiro. Você pode imprimir quanto dinheiro quiser, sempre que precisar. Viu uma casa e deseja comprar? Basta imprimir mais dinheiro. A tentação para usar esse poder é grande, certo? Mas um lembrete, você deve usar com cuidado. Como vimos no artigo anterior, ao botar mais dinheiro em circulação, a população ao seu redor fica mais pobre, pois você derruba seu poder de compra com a desvalorização da moeda. 

Os únicos que são beneficiados com a impressão de dinheiro são os primeiros utilizadores, pois eles comprarão os produtos ainda pelo preço original antes do reajuste inflacionário. Agora, se você continuamente produzir dinheiro para satisfazer suas necessidades, e as pessoas começarem a notar que estão ficando mais pobres com isso, talvez elas comecem a se revoltar com você e isso botará em cheque seu domínio e seu monopólio. O que você deve fazer então? Será bem interessante se você compartilhar com alguns amigos o direito deles produzirem dinheiro também, mas com algumas regras que devem seguir. Dessa forma, você cria um imenso sistema meio difícil de entender para que seu controle seja perfeitamente estabelecido. Veja nas linhas a seguir como funcionaria seu sistema...
Vamos supor que você viu uma casa linda, maravilhosa e confortável, mas ela é muito cara. Ela está avaliada em R$700.000,00. Infelizmente, você não tem esse dinheiro todo, mas e daí? Você é o poderoso chefão da máquina de produzir dinheiro (no caso, o papel do governo ou do Banco Central, pode escolher!) então é só mandar imprimir o valor necessário. Você leva então o valor produzido para o dono da casa e a compra da mão dele. O que este dono fará? Ele irá ao banco guardar seu dinheiro, certo? Só que o banco pertence a um de seus amigos e, portanto, pode tirar sua módica partinha na produção de moeda.
Hora de levar seus R$700.000,00 para o banco!
 
Um banco que funciona pelo sistema de 100% de reservas, tem a obrigação de manter todo o dinheiro de seu dono disponível sempre que ele quiser. Este seria o correto, certo? Se de repente, o antigo proprietário da casa que você comprou quisesse retirar R$700.000,00 de sua própria conta bancária, ele chegaria ao banco e encontraria integralmente este valor disponível para saque. Mas não é assim que funciona para os bancos que são seus amigos, afinal, você é um jovem muito esperto. 

Seus amigos podem manter apenas uma porcentagem do valor depositado. No mundo real, cada país estabelece essa porcentagem, mas vamos supor que você decidiu que os bancos mantivessem como reservas apenas 10% do dinheiro guardado. Nessa situação, apenas R$70.000 precisam estar disponíveis na conta bancária do depositante. O que acontece com o resto do dinheiro? É posto em circulação, obviamente. O banco agora está livre para comprar novos ativos e pagar por eles utilizando o dinheiro que lhe foi depositado pelo antigo proprietário da sua nova casa. Loucura né? Mas pode ficar pior (e fica).

Vamos supor que um jovem chamado Marcelo deseja também comprar uma casa no valor de R$630.000,00. Ato contínuo, ele irá para o banco e pede um empréstimo. O banco então pega o dinheiro “disponível” do ex-proprietário e o empresta para o jovem sonhador que busca a casa própria. Marcelo então paga o valor requisitado pela imobiliária, e esta por sua vez deposita o dinheiro no banco. Novamente, o que acontece? O banco guardará apenas 10% destes R$630.000,00 e colocará o resto em circulação novamente. Percebe o pulo do gato aqui? O leitor mais atento com certeza já percebeu.

Neste sentido, dinheiro novo está sendo criado pelos bancos a todo o momento. Não entendeu? Ora, veja bem, você criou R$700.000,00 que por sua vez foi depositado no banco, e deste valor foi retirado R$630.000,00 para empréstimo, que retornou para o banco na forma de um novo depósito, o banco então guarda 10% desse valor e bota em circulação R$567.000,00 para aquisição de novos ativos. Neste cenário, a partir de um depósito de apenas setecentos mil reais, foram criados um milhão e oitocentos e noventa e sete reais que foram postos em circulação e empurrando com isso os preços, ocasionando inflação. O computador informa que o ex-proprietário têm R$700.000,00 na sua conta, e que a imobiliária tem R$630.000,00, mas o dinheiro não está lá realmente. Ele existe de forma fictícia. O banco tem mais dinheiro emprestado do que ele tem em reserva nos seus cofres. 

Eis aí a oração diária dos bancos.
O que está acontecendo é uma fraude financeira, que possui um aval legal para funcionar. Os bancos simplesmente transferem a riqueza populacional para seus cofres, sem se importar com as consequências que isso causa como o aumento da oferta monetária e a inflação da moeda. E tudo isso ocorre com permissão do governo, por meio do Banco Central. Se houver demanda para tal, talvez em outro artigo eu explique melhor como funciona o relacionamento entre o governo brasileiro e os banqueiros, no mais, vamos nos manter no foco deste texto.

Devemos compreender que o capitalismo é um sistema que possui ciclos econômicos, perfeitamente naturais e ajustáveis pelo mercado. Para ilustrar o que quero dizer, o Federal Reserve (Banco Central Americano) só foi criado em 1913, e antes disso todas as recessões tinham vidas mais curtas. Os Estados Unidos, durante todo o século XIX passou por inúmeros períodos de crise que não causaram grandes impactos e nem profundos problemas no sistema global, podemos citar as crises de 1819-1820, 1839-1843, 1857-1860, 1873-1878, 1893-1897 e 1920-1921 – com expansões monetárias, depois recessões e por fim, a recuperação. Por que não falam disso nos livros das faculdades e das escolas? Porque eles não tiveram grande impacto mundial, e também porque são a prova clara de que o mercado consegue se recuperar e se reajustar sozinho, sem a necessidade de intervenções do governo – que em todas essas ocasiões, não fez absolutamente nada. 

Durante todo o período do boom econômico, após o fim da crise de 29, o presidente americano Calvin Coolidge incentivou uma onda inflacionária – através do Federal Reserve – expandindo a oferta de moeda em U$ 28 bilhões. Seu objetivo ao imprimir mais dinheiro era estimular a economia americana pós-crise. Porém, o problema (como já foi apresentado) é que quanto mais dinheiro estiver circulando, mais altos serão os preços e menor o poder de compra real da população.  

Além disso, o governo passou a incentivar a migração de depósitos à vista (conta corrente) para depósitos a prazo (conta poupança), estimulando o crédito. Acontece que os bancos delimitam suas reservas fracionárias a partir dos depósitos a prazo. Assim, quando a poupança aumenta, o mesmo ocorre com o dinheiro que pode ser emitido – seguindo aquele sistema de reservas fracionárias que expliquei logo acima. 

Por fim, por conta da destruição perpetrada pela Primeira Guerra Mundial, os governos europeus passaram a pedir aos banqueiros americanos por uma redução na taxa de juros para que eles pudessem financiar a reconstrução na Europa. 

There is no life like the American Way of Life.
Com todo esse dinheiro circulando, a impressão que se tinha era que os Estados Unidos passavam por uma fase de prosperidade eterna. Situação que era ainda mais agravada graças as declarações de nomes importantes da época e as propagandas de Hollywood. O fato de 1924 ser um ano eleitoral, apenas agravou o quadro, pois incentivou o governo a criar a sensação de que a nação passava por um amplo e forte crescimento econômico, mesmo que este não tivesse bases sólidas. 

Qual foi o resultado de toda essa festa e expansão monetária? Tudo se valorizou graças a ela. Os preços das hipotecas dispararam, porque a população tinha meios de conseguir crédito fácil, expandindo seu valor para cima (efeitos de uma demanda aumentando sem o respectivo acompanhamento da oferta). Entretanto, essa euforia não poderia durar muito. Quando a bolha finalmente estourou na sexta-feira negra e quando todos correram para vender suas ações, tiveram o desprazer de perceber que esta já não valia mais nada. 

Porém, em 1930, a economia americana já havia demonstrado que estava se reerguendo e entrou em uma recessão suave. Como ocorrera nas crises anteriores, se absolutamente nada tivesse sido feito, o ano seguinte já deveria trazer a recuperação parcial ou total da economia. Mas o que aconteceu dessa vez que impediu que a nação se consolidasse novamente? O governo. 

Acontece que o presidente Hoover, empossado em 1929, não acreditava que o mercado poderia se reajustar sem ajuda. Influenciado por ideias “pré-new deal”, o presidente incentivou empresários a não cortarem gastos e nem a reduzir salários. Na verdade, para ele, os empresários deveriam fazer o oposto disso, expandindo suas despesas com capital e aumentando os salários. Sua lógica era de que tal política deveria manter o poder de compra das pessoas e consequentemente a roda do mercado girando. 

Poderia piorar? Claro que sim. Hoover começou a incentivar para que os governos locais se endividassem mais e gastassem seus empréstimos em obras públicas. Além disso, numa busca de tentar controlar os preços do trigo, do algodão e de outros produtos agrícolas, ele elevou as tarifas de importação, fazendo com que a fronteira dos EUA (a terra do “livre-mercado”) fosse praticamente fechada aos produtos estrangeiros .

Hora de começar a fazer barreiras protecionistas!

A resposta no mundo todo a estas políticas foi praticamente imediata. Todos os países começaram a erigir barreiras protecionistas, fazendo com que as linhas de comércio fossem severamente restringidas. As exportações americanas caíram de U$5,5 bilhões em 1929 para U$1,7 bilhão em 1932. Quando o comércio internacional foi interrompido, a agricultura simplesmente desmoronou. Acontece que os bancos rurais eram os principais credores dos americanos. Quando a agricultura entrou em colapso, milhares de pessoas simplesmente decidiram dar o calote e com isso inúmeros bancos fecharam suas portas. Os bancos que ainda permaneceram em pé se viram obrigados a restringir suas operações (e acabar com toda a farra que já vinham fazendo) e passaram a se recusar a conceder novos empréstimos. 

Como se isso não bastasse, uma série de eventos na Europa apenas piorava o cenário cada vez mais caótico no globo. O nacionalismo e o socialismo tornavam-se filosofias cada vez mais desenfreadas, o que fez com que os europeus (principais devedores) começassem a dar o calote. Esse golpe atingiu os bancos americanos em seu ponto mais fraco – suas carteiras de investimentos. 

Em 1931, mesmo com o governo subsidiando dezenas de obras públicas, incentivando a construção de navios e aumentando progressivamente seu gasto, o desemprego havia se tornado pandêmico, afetando a vida de 8 milhões de americanos. No ano seguinte, numa busca de tentar controlar o desemprego e “incentivar o consumo”, o governo continuou seguindo sua política de déficits públicos, com o aumento de uma série de impostos, mas tal medida serviu apenas para piorar a situação contribuindo com o desemprego de 12,4 milhões de americanos. 

As ações de Hoover, apenas pioraram o quadro clínico de 1929, que poderia ter sido um simples resfriado passageiro, mas tornou-se uma febre de proporções apocalípticas, graças as intervenções de seu governo. Mas ao contrário do que acreditamos, as coisas podem sim ficar muito piores. E como ficaram? Roosevelt chegou a presidência. 

Influenciado pelas ideias econômicas de Keynes e a (terrível) gestão de seu antecessor, Roosevelt decidiu desvalorizar o dólar, seja aumentando-o em quantidade (imprimindo mais dinheiro), quanto confiscando o ouro que lastreava a moeda. Em menos de 100 dias de governo, o dólar já havia sido desvalorizado em 40%.  

Será que a nação sobrevive aos impactos econômicos do New Deal?
A fim de dar outro golpe assombroso na economia, Roosevelt ainda incentivou o inimaginável na “terra da liberdade”. Através do Decreto da Recuperação Industrial Nacional (NIRA), ele possibilitou que as empresas fizessem um conluio entre si, incentivando os cartéis e criando tabela de preços, salários, horas e condições de trabalho em comum. Uma tentativa ingênua de “manter o poder de compra” da população através das folhas de pagamento. Após a aprovação de tal decreto, o desemprego subiu para quase 13 milhões. 

Quando os controladores econômicos viram seus planos irem por água abaixo, pensaram que o caótico cenário poderia ser culpa deles? Não. Suspeitaram que talvez não estivessem “fazendo do jeito certo”. Por isso, em 1934, Roosevelt prometeu gastar U$10 bilhões, sendo que as receitas esperadas para aquele ano eram de apenas U$3 bilhões. Mesmo com essa dose cavalar de gastos governamentais, a recessão seguiu impávida e o desemprego prosseguiu aumentando. 

Finalmente, entre 1935 e 1936, a Suprema Corte, por decisão unânime, declarou ilegal a NRA e outros decretos erigidos por Roosevelt. De acordo com a Corte, os direitos dos Estados haviam sido claramente violados pelo presidente. Essa decisão derrubou alguns obstáculos que degringolavam a economia. Após a intervenção da Suprema Corte, houve uma imediata redução dos custos de mão-de-obra e o aumento da produtividade, uma vez que facilitou para que o mercado se reajustasse. Os efeitos foram rapidamente sentidos e, em 1935, o desempregou caiu para 9,5 milhões, e em 1936 caiu para apenas 7,6 milhões. 

Mas obviamente, os burocratas do Estado não poderiam deixar a economia se recuperar sozinha. Eles precisavam dar uma resposta a Suprema Corte e ainda precisavam do apoio de sindicatos, pois as eleições de 1936 se aproximavam e Roosevelt precisava de votos para se reeleger. Nesse sentido, o presidente instaurou o Wagner Act que dava amplos poderes aos sindicatos para que determinassem tudo aquilo que fosse desleal à classe trabalhadora americana. As disputas trabalhistas foram retiradas da alçada dos tribunais e as levou para o Conselho Nacional das Relações Trabalhistas, tornando os sindicatos promotores, juízes e júris ao mesmo tempo. 

O resultado dessa nova distorção? Os salários foram empurrados para cima e a produtividade declinou. Os distúrbios e os conflitos trabalhistas aumentaram progressivamente. Greves contínuas eram capazes de deixar fábricas inteiras inoperantes. Com isso, o desemprego voltou a subir exponencialmente em 1937 atingindo a marca de 10 milhões de pessoas. 

A solução para essa história parecia longe, mas em 1941 a base de Pearl Harbor foi atacada pelo Japão. Os EUA entraram na II Guerra Mundial nesse momento – fazendo com que 10 milhões de homens saudáveis, que faziam parte da população economicamente ativa, fossem enviados para a guerra (encerrando de vez o problema de desemprego). Além disso, em 1940 houve um abandono das políticas do New Deal e, com isso, a natural recuperação econômica.

E os Estados Unidos vai pra guerra!!!

Resumindo, foi o governo dos Estados Unidos que plantou as sementes daquilo que foi a Grande Depressão. Infelizmente, o mundo interpretou este fato de forma diferente. O mundo adentrou numa fase onde as ideias keynesianas – de gastos descontrolados e déficits orçamentários – passaram a ser as dominantes. Para um problema que foi criado pelo governo, a solução passou a ser mais governo.

A verdade é que não há canetada em legislação que possa alterar a matemática e tornar o homem perfeito. Quanto mais o governo tenta artificialmente estimular o crescimento econômico, pior serão as consequências. Aumentar a inflação e desvalorizar a moeda (como é feito no Brasil) é uma política perigosa que só pode resultar em desemprego e perda progressiva do poder de compra da população. Não apenas a lógica comprova isso, mas os fatos históricos também. 

Mas agora, quando for fazer sua prova para o ENEM e outros vestibulares, saiba que esta não é a interpretação dada oficialmente. Se você quer uma explicação “oficial” do nosso sistema educacional, você pode encontrá-la aqui:


Sobre o Autor:
Vinícius Miranda
Vinícius Miranda. Não espere encontrar em mim algum traço de normalidade. Sou do tipo que ostenta uma bala na faculdade, faço perguntas para meu cachorro esperando que ele responda e não sou como certas pessoas do meu círculo de amizades que mandam indiretas! Pois é.

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